Connect with us

Noticias

Novo capítulo ou déjà vu? O Grupo NBR anuncia fábrica em Goiana e acende o debate sobre a indústria automotiva nacional

Conheça os detalhes do projeto, os veículos prometidos e o histórico da empresa que quer mudar a indústria nacional.

Published

on

nbrcarro3 Novo capítulo ou déjà vu? O Grupo NBR anuncia fábrica em Goiana e acende o debate sobre a indústria automotiva nacional

O Grupo NBR voltou a movimentar o setor automotivo brasileiro com um anúncio que mistura ambição, estratégia e um pitadinho de história mal contada. A empresa confirmou um investimento de até R$ 1,2 bilhão para a construção de sua primeira fábrica no Nordeste, desta vez no distrito de Atapuz, em Goiana (PE), cidade que já carrega no DNA o peso do polo Stellantis — onde nascem os modelos Jeep, Fiat e Ram destinados ao mercado brasileiro.

O CEO da companhia, Evandro Lira, garante que os recursos já estão assegurados, com investidores definidos e contratos assinados. A área de 203 hectares destinada ao projeto foi adquirida, e o cronograma, segundo a empresa, segue em execução. Parece firme. Mas, antes de comemorar, vale entender o contexto completo dessa história.

Goiana no radar: por que mudar de cidade?

Quem acompanha o setor sabe que o Grupo NBR não chegou a Goiana do nada. Três anos atrás, em março de 2022, a empresa lançou a pedra fundamental de uma fábrica em Araripina, no Sertão pernambucano, com investimento inicial de R$ 260 milhões e promessa de início de produção em 2023. O projeto não saiu do papel. Sem maiores explicações ao mercado, a iniciativa foi abandonada.

A mudança de endereço tem uma explicação prática. Segundo o próprio Evandro Lira, a desistência de Araripina se deu pela logística: com o crescimento da proposta, a localização mais isolada deixou de ser viável e ao menos um investidor sinalizou que não toparia instalar a operação no Sertão. Goiana, cortada pela BR-101 e estrategicamente próxima a portos como o de Suape e o de Pecém, oferece uma realidade logística completamente diferente. O terreno já existe, a infraestrutura do polo automotivo regional também.

O que a NBR promete produzir

Aqui mora uma das partes mais interessantes do projeto. A NBR não quer fabricar mais um sedã genérico ou um SUV convencional. O conceito da marca é baseado em uma plataforma modular, capaz de originar diferentes tipos de carroceria a partir de uma mesma estrutura. Buggy aberto, buggy fechado, jipe e picape fazem parte do cardápio.

Os veículos serão construídos com carrocerias em plástico reforçado com fibra de vidro, o que garante leveza considerável. Enquanto um carro médio brasileiro pesa em torno de 1.200 kg, os modelos da NBR devem girar em torno de 600 kg — metade do peso convencional. Isso tem impacto direto no consumo e na dinâmica de direção, especialmente nas condições de uso off-road que a marca pretende explorar.

No conjunto mecânico, o plano prevê um motor 1.3 flex de quatro cilindros, com opções de injeção direta ou multiponto, gerando até 120 cv e torque próximo de 15 kgfm a 2.500 rpm. O câmbio poderá ser manual de cinco marchas ou automático de seis velocidades, e a tração estará disponível nas versões 4×2 ou 4×4. A suspensão independente nas quatro rodas completa uma ficha técnica que, no papel, aponta para um veículo robusto e adaptado às estradas brasileiras.

O preço estimado de entrada é de aproximadamente R$ 70 mil — valor que, se confirmado, posiciona a marca em um segmento com pouca concorrência direta no Brasil, especialmente quando o assunto é um veículo off-road modular produzido nacionalmente.

Um projeto com nove anos de história — e muitas promessas ainda abertas

Vale a transparência: o projeto da NBR não é novo. De acordo com o próprio Evandro Lira, a ideia de construir uma montadora brasileira tem nove anos, e a empresa atualmente conta com dois grandes parceiros estratégicos, cujos nomes seguem mantidos em sigilo. Essa discrição em relação aos investidores é um ponto que o mercado acompanha com atenção.

Até agora, a empresa não detalhou a capacidade produtiva prevista para Goiana, o cronograma exato de obras, nem o número de empregos que serão gerados na nova unidade. Esses dados, centrais para qualquer avaliação séria de um projeto industrial dessa magnitude, ainda estão em aberto. O próximo passo depende das licenças ambientais, cujos estudos serão analisados pela Agência de Meio Ambiente de Goiana (AMAG).

Pernambuco como polo automotivo nacional

A escolha por Goiana não é aleatória. A cidade se consolidou como um dos principais polos automotivos do país ao longo da última década, especialmente após a chegada da Stellantis. A presença de uma cadeia de fornecedores já estruturada, a infraestrutura logística e os incentivos fiscais da região criam um ambiente favorável para novos entrantes.

A NBR aposta exatamente nessa combinação. A proposta institucional da empresa reforça um discurso de valorização da indústria nacional e de ampliação da presença brasileira no segmento automotivo, um território historicamente dominado por grandes grupos multinacionais.

Será que dessa vez o projeto sai do papel? O histórico da empresa pede cautela. O potencial do que está sendo prometido, contudo, justifica a atenção. Um carro modular brasileiro, leve, versátil e acessível, produzido no Nordeste por uma marca nacional, ainda é uma ideia que tem tudo para entrar no coração do consumidor brasileiro — desde que as promessas encontrem o chão de fábrica.