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Tank 300 PHEV Flex: o SUV chinês que fez o Brasil liderar uma revolução global nos carros híbridos

Às vezes, uma revolução não vem de onde todo mundo espera. O anúncio que a GWM fez no último sábado, 25 de abril, durante o Beijing International Automotive Exhibition, não foi só mais um lançamento de SUV premium. Foi a apresentação oficial de algo que nenhum fabricante do mundo havia conseguido antes: um híbrido plug-in movido a etanol. O GWM Tank 300 PHEV Flex é esse carro, e ele já está nas concessionárias brasileiras.
Vai precisar de R$ 342 mil para levá-lo para casa. Mas o que ele representa vale muito mais do que o preço.
O que torna o Tank 300 PHEV Flex único no mundo
A pergunta que vale fazer primeiro é: por que ninguém tinha feito isso antes? A resposta tem a ver com infraestrutura, vontade política e um mercado específico no mundo que mistura etanol com combustível de forma natural na vida cotidiana. Esse mercado é o Brasil.
As primeiras 600 unidades importadas de Baoding, na China, já estão disponíveis nas concessionárias da marca. O desenvolvimento do sistema custou aproximadamente R$ 58,4 milhões e foi conduzido pelas operações brasileiras da Bosch e da própria GWM, com suporte direto da matriz chinesa.
Ricardo Bastos, diretor de assuntos institucionais e governamentais da GWM no Brasil, contextualiza o porquê de a China ter apostado nessa tecnologia: “A China tem uma política nacional de biocombustíveis. A província onde fica a cidade de Baoding, por exemplo, adiciona 10% de etanol à gasolina”. O Brasil, claro, vai muito além disso, e foi exatamente essa especificidade nacional que tornou o projeto viável e necessário.
Potência idêntica à versão a gasolina, mas com uma lógica totalmente nova
Uma dúvida natural de quem ouve “híbrido flex” é se a versão eletrificada perde desempenho em relação ao modelo convencional. A resposta do Tank 300 é direta: não perde nada. O conjunto formado pelo motor 2.0 turbo bicombustível e o motor elétrico entrega os mesmos 394 cavalos de potência e 75,5 kgfm de torque da versão somente a gasolina.
O segredo está na arquitetura do propulsor. A GWM explica que o motor adota o ciclo Miller, uma configuração que prioriza eficiência energética ao reduzir a compressão efetiva e otimizar o aproveitamento da energia gerada na combustão. Na prática, o carro queima menos combustível sem sacrificar a resposta quando o motorista precisa de potência.
Acoplado a um câmbio automático de nove marchas, o Tank 300 PHEV Flex acelera de 0 a 100 km/h em 6,8 segundos, desempenho que não envergonha muita gente em uma pista.
Autonomia, consumo e recarga: os números que importam
Com bateria de 37,1 kWh, o SUV entrega até 74 km de autonomia elétrica pelo padrão Inmetro. No ciclo WLTP, esse número sobe para 106 km sem precisar de uma gota de combustível. Para quem usa o carro principalmente na cidade e tem ponto de recarga em casa ou no trabalho, isso significa que semanas inteiras podem se passar sem passar em um posto.
Quando a bateria acaba, o motor flex assume. Rodando a gasolina, o consumo é de 18,3 km/l na cidade e 18,8 km/l na estrada. Com etanol, os números caem um pouco: 13,1 km/l urbano e 14,1 km/l rodoviário, o que ainda é uma performance expressiva para um SUV 4×4 com mais de 390 cv.
A recarga rápida DC aceita até 50 kW, o que permite ir de 30% a 80% de carga em aproximadamente 24 minutos. Isso muda completamente a equação de longa distância, tornando paradas em eletropostos muito mais rápidas e práticas.
Segundo Luiz Augusto Barroso, especialista em mobilidade elétrica e pesquisador do setor automotivo, a combinação de plug-in com flex representa um salto tecnológico relevante para mercados como o brasileiro: “O PHEV flex resolve o problema da ansiedade de autonomia sem depender exclusivamente de uma rede de carregamento ainda em expansão. É um sistema de transição inteligente para um país que já tem a infraestrutura do etanol consolidada”.
A corrida verde que o Brasil já está vencendo
O Tank 300 não chega num vácuo. Ele surge em meio a uma corrida silenciosa, mas acelerada, pelo domínio dos híbridos flex no mercado brasileiro. A Toyota foi pioneira com o Corolla Hybrid Flex em 2019, inaugurando uma categoria que antes não existia. A Stellantis veio depois com a tecnologia Bio-Hybrid, produzida localmente. Agora, a Volkswagen anunciou que a picape Tukan será seu primeiro híbrido flex nacional.
A tendência aponta para um caminho sem volta: num futuro próximo, todas as montadoras que fabricam no Brasil terão um modelo híbrido flex, seja na modalidade leve (MHEV), convencional (HEV) ou plug-in (PHEV). O Tank 300 chegou na frente de todos no recorte plug-in, e esse não é um detalhe menor.
Os dados da União da Indústria da Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Única) ilustram bem o impacto acumulado dessa trajetória: desde que os carros flex chegaram ao mercado em 2003, o uso do etanol evitou a emissão de mais de 620 milhões de toneladas de CO₂ para a atmosfera. Colocar a tecnologia plug-in nessa equação amplia esse impacto de forma significativa.
Carlos Zarpelon, consultor automotivo e especialista em eletrificação veicular, reforça o posicionamento estratégico do Brasil nesse cenário: “Nenhum outro país do mundo tem a combinação de infraestrutura de etanol, frota flex consolidada e crescente rede de carregamento que o Brasil possui. A tecnologia PHEV flex faz muito mais sentido aqui do que em qualquer outro lugar”.
Um SUV premium que vai muito além do visual
O Tank 300 não é novidade no Brasil em termos de presença visual. O modelo já circula nas ruas com a versão convencional e construiu reputação como SUV robusto, com apelo off-road real, acabamento premium e posicionamento de nicho. A versão PHEV Flex mantém tudo isso e acrescenta a tecnologia que transforma o caráter do veículo.
A tecnologia 4×4 segue presente, assim como o conjunto de recursos que posiciona o Tank 300 no segmento de SUVs de médio-alto luxo. A diferença é que agora o motorista pode escolher como quer rodar, seja elétrico, híbrido ou apenas com o motor flex, dependendo da situação e da disponibilidade de recarga.
Outro detalhe importante: a tecnologia do Tank 300 PHEV Flex deve se expandir para outros modelos da marca. O Haval H6, um dos SUVs mais vendidos da GWM no Brasil, deve receber o sistema em breve, democratizando o acesso a essa solução dentro do portfólio da montadora.
O GWM Tank 300 PHEV Flex não é apenas um carro novo chegando ao mercado. É o registro histórico de que o Brasil, com toda a sua singularidade energética, protagonizou um marco que o restante do mundo ainda não havia alcançado. A combinação de etanol, plug-in e quase 400 cv nunca tinha existido antes. Agora, ela tem endereço, preço e 600 unidades prontas para rodar pelas ruas brasileiras.